|
|
|
Monólogo, seguindo a tradição dos contadores de histórias. Um actor, portanto, que criará com o seu corpo todo um universo de personagens, animais, objectos, desde que não recorra a um registo figurativo. Antes a uma elaboração sugestiva, tendo a emoção, o acto de emocionar o público, como elemento vital da representação. Sugerem-se curtas pausas com congelação das imagens criadas pelo corpo nos momentos mais expressivos ou quando os gestos forem muito frequentes. Na verdade, o actor deverá ter em conta que os movimentos, a gestualidade, as acções existem na maioria dos casos para se criar imagens que necessitarão de ser estacadas por breves segundos para que se possam ler com mais intensidade e clareza no público. Essas pausas, em situação normal, não deverão durar menos que dois ou três segundos, nem muito mais do que isso. Não se sugere, contudo, uma representação aos repelões ou intermitente mas, antes, a consciência de que o trabalho do actor, lidando com realidades imaginárias sugeridas pelos gestos, precisa de outras regras de leitura. A pausa operada nos seus momentos expressivos, quando o gesto se abre e revela, é essencial. Este texto foi criado para que o actor possa trabalhar não apenas “do pescoço para cima”. O seu rosto é expressivo, sem medo de cair no grotesco, permitindo que as expressões faciais se possam, de certa forma, contaminar por todo o corpo.
Um palco despido e um tapete ao centro, podendo haver uma pequena cortina atrás do tapete, assinalando uma área de bastidores (que pode inclusive ser usada durante os interlúdios, assinalando a passagem da Parte Inicial para a Parte intermédia e desta para a Parte Final). O prólogo será feito fora do tapete, como se fosse “fora do espectáculo”, eventualmente à frente, procurando-se uma maior intimidade com o público. A cena 0 deverá, por sua vez, ser entendida como um espaço de transição entre o “fora” e o “dentro do espectáculo”, como uma permissão para se poder começar. De resto, todo o relato ocorrerá dentro, nesse pequeno palco que se convencionou. Os espectadores dispõem-se frontalmente como numa estrutura à italiana ou em semi-circulo com o tapete. Dispensa-se o uso da cortina de boca e de qualquer outro dispositivo cénico.
A luz deverá ser participativa e desenhada como uma extensão dos gestos e das palavras, contribuindo para as ambiências, espaços, estados de alma. Rejeita-se qualquer tipo de cenário figurativo ou realista. São os espectadores, através do trabalho sugestivo do actor, que completam e acabam a cena, nas suas cabeças, assim como quando se lê um livro e a imaginação do leitor materializa os espaços, as personagens e os objectos. Talvez a luz possa criar atmosferas mais pictóricas, como o aparecimento, eventualmente de uma lua ou a sugestão muito impressionista de uma ambiência (um incêndio, um horizonte, um crepúsculo, etc.) Isso dependerá dos objectivos, dos meios e do espaço cénico em questão. De qualquer forma, a encenação não deverá afastar-se muito de um espectáculo que, em última instância, se possa realizar em qualquer lugar, de dia ou de noite, dependendo sobretudo do centralismo da actividade do actor. A música e a sonoplastia, sobretudo se forem ao vivo, seriam um complemento muito favorável.
Alabad bin Muhammad Almançor imitará de forma precisa Khalid Almançor, Youssef, Layla e Amin e de forma mais vaga ou esboçada as restantes personagens. ---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- PARTE ANTECEDENTE
(O actor, como ele próprio:) Boa noite[1]. Há um ditado que diz “uma mão só não bate palmas”. (Curta pausa.) Desiluda-se, entretanto, o espectador se julga que as queremos antecipadas. Mas por antecipação, precisamente, imaginem os nossos espectadores que, se merecêssemos no fim do espectáculo o vosso aplauso, só o podiam fazer com uma das mãos, porque a outra, por exemplo, estava esquecida numa algibeira. Tentando imaginar o gesto, o gesto de bater palmas, ou melhor, de bater palma, e tendo em conta que merecíamos de facto o vosso agradecimento, o que teríamos então? Um aceno repetido de um braço flectido com a palma da mão para dentro, da direita para a esquerda e da esquerda para a direita. Ou seja, toda uma sala esbracejando de forma estranha, tentando estalar o ar, brusca e mecanicamente. Mas nunca um aplauso, por mais vontade que houvesse; nunca um aplauso, se a outra mão continuasse, por absurdo, abandonada no bolso. Podiam os espectadores colmatar a falta de uma das mãos com hurras, vivas ou bravos, podiam bater a sua palma levantados, manifestando plena satisfação... tal não nos consolaria, nem nos levantaria o moral. Não. Soaria sempre a qualquer coisa entre a ironia e o sarcasmo puro, algo bem mais terrível que um antipático não gostei. E porquê? Porquê? Porque aqueles braços solteiros, gesticulando de cá para lá, não nos diziam olá, não nos diziam adeus mas, sim - ora atentem bem -, um claro e inequívoco... (Bate “palmas” só com uma mão.) vai-te embora canastrão, dedica-te à pesca, estamos fartos de ti e demos por muito mal empregue o nosso tempo! Ora, experimentem... não, a sério, experimentem... (Se houver gente a fazê-lo, o actor pode ficar a observar, como que a reavaliar tudo o que disse até aqui. Eventualmente, pode até fazer comentários em voz alta.) Numa situação destas, tudo ficaria, então, perfeito, se brotasse agora dos vossos lábios maldosos algum (Volta a bater “palmas” só com uma mão:) houu ou buuuu ou fora! (Termina o gesto.) E, então, aí, já só faltaria patearem a sala como os nossos antepassados ou, numa versão ainda mais grosseira, arremessarem-nos com objectos, até nos sujeitarem à mais profunda das humilhações. Ora, experimentem… (Arrepende-se imediatamente da sugestão.) Bom, bom, bom, bom, deixando para trás um cenário como este, se a vossa intenção fosse realmente positiva, se fosse do vosso interesse aplaudirem-nos, bem podiam então bater com a palma da mão no rosto ou na perna para produzir o mesmo som chapado; bem podiam bater no cocuruto do espectador da frente, que nada, mas mesmo nada, substituiria um simples e maquinal, até mesmo distante... (Bate palmas.) Nada! Uma mão... outra mão. O mesmo desejo, sem que alguma fique com o que é da outra. Uma mão... outra mão. Cumprindo, o mesmo, o idêntico, o exacto objectivo de chocarem, com as respectivas palmas e em compassos regulares e repetidos, obtendo, mancomunadamente, o resultado que procuram. Não é belo? (Curta pausa.) Avancemos, então!
PARTE INICIAL
0 (Para cima.) Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso. (Para a frente, de braços erguidos.) Tem Deus, o Senhor dos Mundos, louvores que esgotam todas as palavras e que a inteligência jamais poderá conceber. Louvores incomparáveis e indefiníveis que não podem ser confrontados com palavras ou gestos. Este relato é enviado da cidade de Silves porque Deus permitiu que eu ainda estivesse vivo. Ao seu servo Muhammad, a quem confiou a sua revelação e que publicou as suas leis e proibições, organizador do seu povo, glória do universo e dos humanos, dirijo esta saudação para que as minhas palavras e gestos possam viajar pelos tempos e pelos mundos, merecendo sempre a sua aprovação e agrado.
1 “Foge, foge, irmão! Não te deixes apanhar! Isso, isso! Por aqui, por aí não, por aqui, por aqui, demónio! Ai, aiiiii...” “Ufff...” Foi por um triz. Estão cada vez mais espertos, os malditos. Agora já não se passa um dia sem que algum dos nossos irmãos fique prisioneiro daqueles estrangeiros cornudos que vieram para aqui estragar-nos o sossego! “Vlam!” (Mima a cara presa numa rede.) Uma rede! Quatro dos nossos, apanhados que nem peixinhos! Eis a conta de hoje. Que raiva! “Oh, oh, oh, ah, ah”, riem-se de nós quase ao pé das muralhas. Apanham-nos como figos, os cabrões. E tudo por causa... de uns figos. (Youssef:) “Um figo é sempre um figo”. Dizia o meu irmão Youssef, depois de escapar novamente. “Mas não, maninho, não voltes lá. Morre antes aqui à fome, connosco!” Qual quê. Youssef até cagava! O quê, propriamente, não sei. Cascas de figo, talvez. Ele mandava que nos sentássemos em semicírculo, esticava os braços em sinal de atenção e, quando já nem as moscas se ouvissem, (Pantomima de Youssef a defecar.) vomitava pelo traseiro uma massa esverdeada que a qualquer um fazia desmaiar de horror. Fazia desmaiar de horror aos mais calmos e resignados, como eu, ou talvez aos restantes, quando a cidade era bela e próspera e as pessoas sorriam bem mais do que hoje. Mas agora... Ainda nem Youssef acabava aquele espectáculo decadente e já uma dezena de desesperados, esfomeados, achacados, impacientes, desatinados tinham devorado toda a trampa verde que o meu irmão descarregara de forma tão... Bom, para mim, aquilo era um exibicionismo depravado a merecer a ira de Deus, mas também reconheço que era tanto o sofrimento, tanta a dor, que já não havia castigo, por mais divino que fosse, que nos deixasse pior. E o certo é que, depois de consumida com sofreguidão aquela oferta esverdeada, ficavam para ali estendidos, doentes, acabrunhados, a choramingar, que a vida era muito triste e o melhor era matarem-se e ai, ai, ai e ai, ai, ai. “Deus, porque nos abandonas? O que fizeram os cães estrangeiros para merecerem isto?” (Youssef:) “Um figo é sempre um figo”. Dizia o meu irmão Youssef, com aquela calma natural, quando via da muralha os malditos provocarem-nos de todos os modos. (Alguém na muralha:) “Sois todos sem excepções dignos de mil mortes!” Respondíamos então. (Outro alguém na muralha:) “Durante a vossa ausência hão-de nascer-vos muitos filhos adulterinos!” (Mais outro alguém na muralha:) “Ptuuuh! Ptuuuh! Vamos, cospe na cruz, ptuuuh! Ptuuuh! Cospe na cruz!” (Ainda outro na muralha:) “Vejam só que chamam Deus ao filho de uma pobre mulher!...” Depois, cerrávamos os punhos e acabávamos sempre da mesma maneira... (Careta.) “Buuuu! (Careta.) Bluuuuu! (Careta com a língua de fora.) Blaaaaaaaaaaah!” (Curta pausa.) E pronto. Lá nos retirávamos para a nossa tristeza, com a sensação de que não nos entendiam de todo. Enfim, estando nós nesta miséria, também as ofensas se perdiam – (Alguém para Alabad:) “Mas não, irmão, então! Eles viram perfeitamente que cuspíamos na santa cruz...” O que, aliás, só vinha demonstrar que quando as palavras não chegam, quando as palavras não alcançam, ptuuuh (Mima um cuspido que faz lembrar um projéctil a sobrevoar os ares até atingir o alvo.), o seu molho projectado tem um talento universal! Universal também era a noite e todos os dias caía. Para os desesperados ou destemidos o momento mais feliz do dia. Para mim não: “Com este arco que me puseram nas mãos e com a aljava que trago às costas, lutarei decidido até ao fim ou morrerei simplesmente à fome junto da minha mulher.” Mas à noite havia sempre quem se aventurasse para lá das muralhas. Nunca regressariam todos; havia até quem se entregasse... mas, também, desde que a peste veio para aqui morar, desde que todos os dias morriam, aqui e acolá, familiares, amigos e conhecidos, desde que os cães, os gatos, as ratazanas (e sei lá mais o que fosse que se mexesse) foram já servidos como iguaria magnífica, quem é que se importava? Quem? (Pausa.) Eu. (Curta pausa.) Eu importava-me com o meu irmão. Desde o dia em que uma pedra quase lhe esmagou a cabeça nunca mais foi o mesmo. E agora, como se isso já não bastasse, lá ia ele todas as noites, muralha abaixo, desaparecendo na escuridão até ao dia em que nunca mais voltasse. “Mas não, maninho, fica aqui ao pé de nós, morre antes aqui à fome connosco, não te desgraces.” (Youssef:) “Um figo é sempre um figo.” Ó Deus, às vezes cheguei a desejar que partisse e não voltasse. Pronto! Acabava-se-me o sobressalto, esta palpitação desordenada. Que parta e não volte! Que se entregue, que se converta à Cruz e, raios, que se case com ela!
2 (O tio:) “Se tiveres que casar, casa só com uma mulher: uma só basta para satisfazer dois exércitos.” Palavras sábias as do meu tio (misericórdia divina e saudações para ele!) Por isso casei com Layla. Uma linda mulher, de palavras muito meigas e nádegas majestosas. (Layla dança e canta, sedutora, baloiçando os quadris...) “Layla... como... és beeela!” (Layla:) “Bela para ti, meu esposo, só para ti!” Louvemos a Deus que colocou o maior prazer do homem nas partes naturais da mulher. As minhas já só encontrariam paz se lutassem com as dela, se as tomassem de assalto antes de saqueá-las como um verdadeiro depravado! Dito isto... (Repara no seu pénis exageradamente crescido.) Eh, lá! Eis-me, então, desordenado e desmedido no corpo de Layla, num conflito animado sem tréguas, de cá e para lá, de cá e para lá, de cá e para lá, até... (Canto sugerindo orgasmo, enorme prazer. Movimentos lentos e abertos. Depois esta sonoridade vai-se desfazendo, remetendo, aos poucos, para os ruídos de um confronto armado. Alabad tem os olhos fechados, mas reage às transformações. Por fim, tudo se vai metamorfoseando no som de uma mão batendo à porta, até se chegar a um audível: TOC, TOC, TOC. Alabad abre os olhos.) Fiquei, por isso, branco, amarelo, azul, de todas as cores quando um vizinho me apareceu à porta, desvairado e aos berros: (O vizinho:) “Cilada de cristãos! Cilada de cristãos!” “De quê?” (O vizinho:) “De cristãos! Cristãos!” “De quem?” (O vizinho:) “Cristããããããããos!” É claro que, quando dei por mim, estava já montado em cima de um burro, em direcção a sul, (Apontando com gesto cortante.) tac! a caminho de Lisboa, (Gesto cortante, mas agora na direcção de Lisboa.) retac!... “Eia, ei, arre burro, arre!” (Caminhada lenta e pesarosa em cima de um burro velho.) Tão rápida foi a nossa fuga que o meu... (Observa o pénis ainda crescido.) ainda nem tinha adormecido; ao contrário da besta que me transportava, que ainda nem tinha acordado! “Eia, ei, arre burro, arre burro!” (Caminhada lenta e pesarosa em cima de um burro velho. Alabad, na cadência lenta, vai-se sentido desarticulado do seu objectivo.) (Interrompendo a representação.) Conseguem imaginar condição mais triste? (Pausa.) Importa agora referir que esta infelicidade se passou em Santarém, a cidade onde nasci e onde aprendi a orar. (Orando.) “Ó Deus, para Ti são a minha prostração e oração. Ó Deus, ó nosso Senhor, Tu és a paz, e de Ti vem a paz, e para Ti volta a paz. Ó nosso Sustentador, dá-nos uma vida de paz e conduz-nos para uma morada de paz.” (Da posição deitada, com a testa no solo, levanta-se num salto.) TA-RAM!... LISBOA! Ohh! O que é que se pode dizer?... Lisboa é graaande e bonita e luminosa, com a sua fortaleza lá no alto, pequena mas cheia de orgulho, estendendo para sul um manto gigantesco de casas brancas com o Tejo a quebrar-se-lhe aos pés. E tudo muito bem agasalhado por umas muralhas que nem vos conto. É claro que para o meu irmão Santarém seria sempre Santarém. Mas uma pequena casa de um arrabalde de Lisboa também seria uma pequena casa de um arrabalde de Lisboa. Pelo menos era aí que Khalid Almançor, o nosso tio, nos acolhia e ganhava a vida entre o pomar, a horta e a cidade. (Trabalhando na terra.) Ei-ô proum... ei-ô proum... ei-ô pr – (Pergunta ao público.) Somos então agricultores? (Nem espera pela resposta.) Claro que sim! E com a cidade toda embeiçada pelo comércio do rio, alimentamo-la de frutos e legumes, o que já não é nada mau para quem ainda agora aqui chegou. O que já não tem sido tão bom é o caso do rei desses abomináveis portugueses, Ibn Enrrik (o maldito de Deus!), não se ter dado por contente por nos expulsar de Santarém e insistir agora em rondar e zoar nesta bela cidade que nos acolhe. (Enquanto diz a fala seguinte, mima uma mosca a circundar o ar.) A rondar, a zoar e, às vezes, a poisar nas bordas da tigela. (Poisa.) Poc! Insolente! “Ó Deus, não pode haver sossego para quem queira ter uma vida um pouco mais recatada?” Houve, contudo, um tempo em que as coisas acalmaram. De tal modo que até perdi o medo de fazer amor à noite, como o ventre arredondado da minha Layla tão bem o demonstra. (Layla dança e canta, sedutora, baloiçando os quadris...) “Layla! Como és beeeela!” (Layla:) “Bela para ti, meu esposo, só para ti!” Porém, amigo, nunca declares que as estrelas estão mortas só porque o céu está enevoado... Esta calma era bem podre e um dia juntou-se mesmo àqueles galegos (que Deus os castigue no dia do Juízo Final!) uma tal multidão de soldados estrangeiros que era impossível não te borrares todo, assim, como eu o fiz, pelas pernas abaixo. E, se por acaso, ainda permanecesses asseado eu falar-te-ia de uma tal esquadra de naus que se ajuntou aqui no esteiro que mal terias lugar para te limpares no rio. Aliás, o melhor será esquecermos o rio. O Tejo é deles. Temos assim que, quando damos por nós, estamos mesmo cercados! A muralha que protege a cidade será a mesma que a enfraquecerá se não se souber espantar esta caterva de insolentes estrangeiros. Isto porque, meus amigos, uma coisa é certa: o sitiado é sempre o vencido, sempre o vencido. Quiseram primeiro conquistar Lisboa com palavras, oferecendo-nos o que já era nosso: (Um cristão importante:) “Podem ficar na posse plena de tudo, desde que nos entreguem a fortaleza!” Arrogantes! Responde-lhes o nosso alcaide (que Deus lhe satisfaça todos os desejos no Paraíso!): (O Alcaide:) “Vejo bem que palavras não vos faltam. Vocês, que vêm perturbar o nosso bem-estar, são quem nos propõe a felicidade? Desde quando o mendigo impõe condições?” Ah, mas são realmente bons no domínio da palração, estes cristãos! Montam grandes discursos, proporcionais ao vazio das suas palavras. E isto e aquilo e assim e assado. E depois atiram-nos com os seus santos, os seus mártires, os seus apóstolos... Enfim, uma legião de lanças atiradas ao desbarato... (Como que se desviando de lanças que lhe são atiradas.) Ftauumm, ftaammm... ptauuom! (Curta pausa.) Ah!... mas são palavras! (O Alcaide:) “Esta cidade, segundo me parece, foi outrora dos vossos. Agora, porém, é nossa, e no futuro será vossa talvez. Mas isso pertence a Deus. Ide-vos daqui, pois só a ferro se abrirão as portas da cidade. As desgraças inevitáveis que nos prometeis dependem do futuro, se é que têm que acontecer. Para quê demorar-vos mais tempo? Fazei o que puderdes, nós o que for a vontade de Deus.” (Silêncio.) O silêncio. (Silêncio.) Foi um discurso de fazer chorar os olhos – (O tio:) “Alabad, não chores. Olha que a pior arma do homem é derramar lágrimas quando as espadas do inimigo querem derramar sangue.” “Oh, sim, meu tio. Não sou guerreiro. Por outras palavras, sou até um fraco. Mas esta timidez natural vai aconselhar-me a tudo suportar; porque o temor, quando é penetrante e desesperado, faz dos cobardes valentes, e o valor é tanto mais forte quanto mais a necessidade o obriga.” Pronto... Quem chora agora é o meu tio. Uns corações moles, é o que somos. “Tio, guarda as lágrimas. Nem sei como fui capaz de dizer estas palavras. Devo tê-las ouvido em algum lado. São palavras, não duvides. Palavras, tio, palavras...” (O tio:) “Com palavras dessas, Alabad, não te faltará nunca de comer e de beber. Comoveste-me!” Mas quem não se comove, quem não se comove são os cristãos, que mudam de parlamentário e ripostam. Segundo dizem, quem discursa agora é o bispo do Porto (que Deus o castigue, enfim!). O intérprete que traduz para a nossa língua bem se esforça, o coitado. Mas aquilo era latim, era realmente latim, não passava de latim e latim seria até ao fim dos tempos. Retira-se, por fim, o bispo com o ódio nos olhos e a guerra nos pensamentos. Não nos saúdam, nem esperam de nós saudações. (Como que observando a retirada do bispo.) (Como que olhando para o castelejo e a cidade, lá no alto.) Saúdo-te eu a ti, mulher. Tu és a minha cidade, com os teus montinhos e as tuas formas arredondadas. É por causa de ti que os homens se organizam ou se dispersam. É por causa de ti que eles se conquistam e se defendem. Porque és uma criatura que junta o céu à terra e ao mar. Porque tens frutos preciosos e jardins perfumados. Porque és boa de carnes e o teu olhar alimenta-me de luz. Porque quanto maiores e mais inabaláveis forem as tuas muralhas maior ganância e inveja despertarás nas gentes. Ai, ai, os que te possuem, os que te gozam os prazeres temem mais que todos perder-te e são bem mais infelizes do que os que não têm nada!
3 (Trabalhando na terra.) Ei-ô proum... ei-ô proum... ei-ô proummm... ei-ô prou – (Youssef:) “E se plantássemos antes nada?” “O quê?” (Youssef:) “Se cultivássemos realmente nada.” “Nada, como? Nada de nada?” (Youssef:) “Nada de nada. Dava menos maçada e podíamos acabar com esta vida de... lá está: nada. Quero viajar, Alabad, ter como única casa a sela de um dromedário, vá lá, de um jumento que fosse, assim, lac, loc, estrada fora... Oh, isso é que era, isso é que era tudo!” “Tudo? E o que é para ti tudo, meu grande estúpido?” (Youssef:) “Tudo? Tudo é sempre tudo.” E é isto o meu irmão mais velho! Confesso que esta vocação para explicar o óbvio começava a enlouquecer-me. “Não trabalhar, Youssef não comer. Não comer, Youssef morrer!” (Youssef:) “Não trabalhar, Youssef comer menos. Comer menos, Youssef saborear mais!” “Mas saborear o quê, parvalhão? O quê, diz-me! O ar? As pedras? Nem as pedras te serão oferecidas, Youssef... nem as pedras te cairão do céu!” (Uma pedra lançada e perdida, chegando até junto dos seus pés.) “Vdam, ponc, ponc, ponc, ponc, poc”. “O que é isto?” (Outra.) “Fiiiuuuu, pac! Vdum, vdam, vdem, pac, pac, pac, poc”. “Pedras?! Mas quem é que nos atira com ped–” De repente, maldição!, um céu imenso de pedras... uma saraivada de pedregulhos... uma tempestade de calhaus... “fiiiuuuumm... fiaaaaan... ziomm... ziaaaaamm... pun-quetum!” (Youssef:) “Vês mano, o céu ouviu-te de tal maneira que, para te satisfazer, sujeitávamo-nos cá a uma destas barrigadas...!” “Agacha-te, estúpido! Queres morrer já hoje ou quê? Não é que não mereç– PTAMP!... Oh!” Tarde demais. Eis o meu irmão agarrado à cabeça, como se quisesse arrancá-la. Depois... “Pretpumb!” Retesado no chão como um pedregulho, confundindo-se com os restantes. “Vamos, maninho, aguenta-te. Ôôô! Acudam aqui! Youssef está ferido, ferido! Acud–ziuuumm... vdem, ploc, repoc... Ai, ai, se não fecho a boca, quem acaba por comê-las agora sou eu!... ziuuum... ziuuum... zuuuum... Aguenta-te aí, maninho, eu já venho, eu já volto.” Nas ruas, ninguém. Todo o arrabalde espreita com mil olhinhos os malfeitores da Cruz. (Alguém:) “Querem provocar-nos, os malditos!” Então, uma a uma, as portas entreabrem-se... shuutt! Juntamo-nos. Ah, somos, sem dúvida, suficientes para lhes dar o troco que merecem! (Outro alguém:) “Nós vamos por aqui, vocês por ali e os que estão deste lado atacam por acolá... Percebido? Aguardem pelo aviso. Tu. Tu vais pedir reforços ao outro lado e faz com que da cidade venham em nosso auxílio. Ouviste bem? Faz com que da cidade venham em nosso auxílio!” Saímos então a campo com os calhaus ainda quentes das mãos desses malditos… “Uhaaaaaaa...” o sinal! E devolvemos-lhes o céu de pedras que nos tinham destinado... “prtum, zuommm, prtum, zaaa, prtum... ssuua, prtum...” “Ah, ah, ah, ah! Vitória! Ah, ah, ah! Recuam! Eles recuam! Vão se embo – hã?” Qual quê! “Lá ao fundo, vê, vê... ali!” Os fundibulários cristãos são substituídos pelo dobro das unidades e – que Deus nos proteja! – desata um “zhum-zhum-zhum... ptum...ptum...ptum-m-m-m” que nunca mais acabava! (Alguém, sendo alvejado.) “Ftan-aaaarghhh!” A primeira baixa. “Aaarghh...” (Morto, a cair.) “Qtumm-bruumm!” “Demónio! São flechas. Eles tomaram as armas.” (Outro alguém:) “Os terraços, para os terraços!” “Aguenta-te aí, maninho, não te mexas, eu já trato de ti! Eu já cá volto!” Dos terraços das casas ripostamos de novo com pedras... “Cabrões! Ladrões! Cristõõões!... Prtum, prtum, prtum... prtum...” E ei-los que correm como esganados. (Surpresa.) Mas na nossa direcção e por todas as entradas do arrabalde! (Alguém:) “Socorro!” Da cidade disparam finalmente em nosso auxílio, mas é tímido o gesto porque, com esta confusão, bem podes apontar a alhos e acertar em bugalhos. Ó Deus, estavamos mesmo no meio! Quem foi que disse que no meio estava a virt – “iuuuuuummmmm!... fiuuuuummm... ziuuuuummm!” (Outro alguém:) “Alabad, às armas, às armas!” “Às armas?” Regressemos ao jogo, então. Ora deixa cá ver... (Como que olhando para um pequeno tabuleiro no chão.) Sim, senhor! Os abominados já ocuparam o centro do tabuleiro, avançam umas casas e afrontam-nos em todas as direcções… Reforços para nós. Reforços para eles... Ah, não, isto já não é uma simples escaramuça. (Reproduz com sons um combate em miniatura em cima do suposto tabuleiro. Identifica com o olhar os invadidos e os invasores. Oportunidade para desenvolver um pequeno gag: No caos da contenda uma flecha minúscula completamente desenquadrada do alvo atinge o seu próprio pé. Ele arranca-a com dor, procura enfurecido o minúsculo agressor, encontra-o no meio da maralha, este parece que se ajoelha, pede-lhe numa voz muito fininha e aflita “piedade, piedade, pieda –”, mas a última sílaba fina-se com uma flecha que lhe é devolvida como lança.) Tal como a sede insaciável, vaza-se a taça e torna-se a enchê-la para vertê-la de novo. Assim corre também este combate: cada vez mais vivos, cada vez mais mortos, cada vez mais feridos, cada vez mais afortunados, cada vez mais cansados, cada vez mais vigorosos, cada vez mais um pouquinho de tudo, que é o mesmo que nada. É, afinal, como a água da taça que se bebeu: pode não saber a nada mas, por vezes, nada nos sabe melhor. (Alguém:) “Resistir, irmãos, resistir!” E... (Mima uma luta corpo a corpo.) “brudfm, plnuq, promb, tanc, plaf, pfiu-fip...” Horas e horas nisto: (Corpo a corpo.) “Brudfm, plnuq, promb, tanc, plaf, pfiufip...” e cada vez mais vivos, cada vez mais mortos. Um disparate pegado! Andamos nós para aqui nesta carniçaria inútil a brigar por um pedaço de chão… e está ali a fazer-se um pôr-do-sol tão bonito! (Pausa, olhando o pôr-do-sol.) (Alguém:) “Alabad, às armas, às armas! Não amoleças!” “Às armas?” Viro-me outra vez para a banda do tabuleiro... Sim, senhor, a coisa está mesmo boa: os malditos repeliram a maioria dos habitantes desarmados, mulheres, velhos, crianças e alcançam, com algum tacto militar, reconheça-se, uma boa parte do morro. (Desviando o olhar do tabuleiro imaginário.) Oh! De súbito lembro-me de Layla! “O que é feito dela?” (Alguém:) “Alabad, vamos sair, já não podemos ficar aqui. Mexe-te, maldito!” (Fugindo, entre a marcha e a corrida.) E lá vamos nós, todos jeitosos, a perder posição. O dia também vai perdendo para a noite e... (Corpo a corpo.) “brudfm, plnuq, promb, tanc, plaf, pfiufip...” Corpo a corpo por esta embrulhada de ruelas e terraços... (Corpo a corpo.) “Brudfm, plnuq, promb, tanc, plaf, pfiufip!” Cada vez mais vivos, cada vez mais mortos. “Ó Deus, isto não vai acabar?” Mas a cada instante, a cada instante, a coisa fica mais feia. Agora sim, consuma-se o que já se adivinhava: xeque-mate. Estão tomados o arrabalde e o cemitério! (Alguém:) “Pela Porta do Ferro, pela do Ferro!” (Fugindo, entre a marcha e a corrida.) E lá vamos nós, todos jeitosos, em direcção à Porta do Ferro... (Estaca.) “Ooops! O quê!? Oh, não… oh, não... é o fim... é o fim...” (Curta pausa. Deixa cair a cabeça, desalentado.) (Uma voz interior:) “Ergue a cabeça, Alabad, ergue a cabeça...” (Levanta a cabeça.) “Vamos, está erguida! O que há para ver, afinal?...” (Procura. Depois, sorriso.) Ah, não fosse levar em conta o provérbio e teria desistido ali mesmo. Só que realmente quando Deus nos fecha uma porta, nunca se esquece de nos deixar outra aberta... Veja-se... ali... (Alguém:) “Pela Porta de Alfofa, tem que ser pela Porta de Alfofa, pela Alfofa...” (Fugindo, entre a marcha e a corrida.) E lá vamos nós, jeitosos, em direcção à Porta de Alfofa. É correr, tropeçar, trepar, pisar, atropelar, acotovelar e voltar a correr e esmagar e correr de novo, se puderes, e empurrar e... “splash, ponc, troinc” …esmurrar tudo o que se te atravessa à frente... “Deixem-me passar!... splash! spramp!...” (Alguém, aflito:) “Maldito, ai, ai, larga-me a barba, larga-me a barba, larga-me a barba...” (Outro alguém, imponente:) “Irmãos! Tenham calma!” Grita alguém que conseguira o feito extraordinário de mantê-la. (O mesmo:) “As nossas vidas são tão preciosas para nós como o recheio das nossas casas para eles. Vejam, ignoram-nos, os malditos.” Oh, sim, mas já não nos ignoraram à noite quando, protegidos pela cerca da cidade, observámos com profunda tristeza a nossa ruína por debaixo dos pés. Ei-los que montam uma guarda com cerca de quinhentos macacos imundos, temendo que respondêssemos! Pouco a pouco, a noite ilumina-se com os fogos que se contagiam uns aos outros ou pela vontade perversa dos extraviados que os ateiam. Ali já viveram muitas mil famílias! Até dói o coração... Pronto, fechou-se! O cerco fechou-se! Considera-te, amigo, engaiolado. “Enfim...” (Baixa a cabeça.) (A voz interior:) “Ergue a cabeça, Alabad, ergue a cabeça...” (Ele ergue-a. Novo sorriso.) Ah, mas resta-me nesta desgraça completa poder ainda recordar a aparição da minha adorada Layla. O mais suave dos sopros confundiu-se com o próprio vento, quando dormia ao relento ainda ao romper do dia. Batia-me aquele sopro quente na nuca, quando Layla me abraçou por trás, com um sorriso que valia para lá de mil agasalhos.
O teu sorriso delicado apareceu-me nesse dia e o coração apertado libertou-se da agonia.
Cativo de ti novamente conquistou de novo a vida e o meu coração dolente sarou logo a sua ferida.
(O vizinho de Santarém:) “Alabad! Alabad! Alabad bin Muhammad Almançor!” “Pois, sou eu... Oh! Omar!” Em época de reencontros, fui surpreendido também pelo meu vizinho Omar. “Toc, toc, toc”, o tal que me aparecera à porta, na minha primeira noite com Layla, em Santarém. Também ele me falou da cidade e acrescentou um pouco mais ao pouco que eu já sabia: (O vizinho:) “Cilada de cristãos! Cilada de cristãos!... Um vigia bradava ao perceber o inimigo e percebia também que já era tarde. Os malditos gritavam por Santiago e pela Santa Maria Virgem. E foram acudidos. Rebentaram o ferrolho e a fechadura quando os nossos irmãos corriam a defender a porta, mas entraram foi no Céu, tal o ataque que lhes caiu em cima. No meio daquela confusão, não pouparam nem as crianças, nem as mulheres, nem os mais velhos, nada. Apenas os poucos que fugiram como eu e como tu, Alabad. E assim se perdeu Santarém.” Enfim... Palavras para quê? “Há que erguer a cabeça, Omar. Olha, sabes, Omar, ouve isto: Desta vez não fugirei! Sim, sim, eu sei... Não sou guerreiro. Por outras palavras, sou até um fraco. Mas esta timidez natural vai aconselhar-me a tudo suportar; porque o temor, quando é penetrante e desesperado, faz dos cobardes valentes, e o valor é tanto mais forte quanto mais a necessidade o obriga.” (O vizinho:) “U-u-u-u-u…” E ei-lo que chora como um perdido… “Ó Deus, para isto tenho jeito, para os pôr a chorar!” Ah, quem me dera que estas lágrimas fossem antes as desses porcos malditos, depois de lhes cravar com dedicação, uma a uma, flechas nos céus das suas abomináveis bocas. Com dedicação e com dedicatória: Aqui, Alabad, criado da vossa dor, servo do vosso pranto, escravo da vossa ruína! (Como um disparo de flecha.) “Ftaummm!” Soubesse eu já manejar o arco... (O vizinho:) “Alabad... esse teu modo de desafio não é mais do que uma fuga para a frente. Eles têm-nos aqui, na mão, não entendes?” (Para o público.) Mas há que olhar em frente, não é assim? Erguer a cabeça que para a frente é que é o caminho, não é verdade? (Não espera pela resposta.) Ora bem. Então, está decidido, seguirei aquele conselho que diz que há três coisas na vida que nunca voltam atrás: a flecha disparada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida. Com a ajuda do meu tio serei arqueiro, com a de Deus poeta e quanto à oportunidade não enjeitarei para já esta, que é a de me calar por uns instantes e recobrar forças para o que falta deste relato.
(Pode surgir aqui um curto interlúdio musical que não se deve confundir com um intervalo.)
PARTE INTERMÉDIA
4 (Para cima.) Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso. (Pausa.) Há sinceridade e elegância num bom arco. Não sou eu que o digo. É o meu tio – que a bênção de Deus recaia sobre si! –, é o meu tio, que já foi arqueiro. (O tio:) “Repara, Alabad, o arco é como o ventre polido de uma mulher.” É maravilhoso o que as pessoas podem enxergar quando gostam muito daquilo que vêem. Não cumprem apenas o sentido da vista: fica na terra o que se vê, eleva-se aos céus o que se não vê. E a isto, por vezes, chamamos-lhe poesia. (O tio:) “Não amoleças, Alabad, puxa a corda e deixa que Deus te guie a flecha. Mas dispara com azedume, rapaz! Se tiveres dentro de ti todo o azedume do mundo, triunfas!” Khalid Almançor, mais que um tio, é o meu digníssimo instrutor. Em tempos, quando ainda vivia em Santarém, fora um dos melhores arqueiros da cidade. Mas um bom arqueiro nunca é prático: decide com calma a sua presa e, se possível, mata-a paulatinamente, não vá o gozo acabar-se-lhe. Não nos podemos esquecer, aliás, daquele ditado que acompanha sempre o bom arqueiro: a pressa é inimiga da diversão... (Pensa.) ou será da afinação? (O tio:) “ALABAD!” Ora cá vamos, então, sem lentidão e com muito azedume no coração... “Raios! Não haverá por aí um limão?” (Um cão:) “Ão, ão!” Para ajudar à cena, ladra-me agora um cão. (O tio:) “ALABAD!” “Pronto! Pego com firmeza no arco... Aponto...” (O tio:) “Não apontas! Um bom arqueiro não aponta, mata! Então!” (O mesmo cão:) “Ão, ão!” “Pego com firmeza no arco... tiro da aljava a flecha...” (O tio:) “Tiras da aljava a maldita flecha... pegas, depois, com firmeza no arco...” “...E puxo, puxo a corda... uhhhh... é tanta a força que não me é difícil acreditar ser esta a última vez... Ai, ai, e a minha aljava está tão bem apinhada de flechas...” (O tio:) “Que acabam, mas que acabam! Ainda lhes vais sentir muita falta, quando tiveres os bofes dos inimigos a arfar por debaixo do teu nariz! As flechas são como filhos que verás partir e nunca mais lhes porás os olhos em cima.” “Uhhhhhh... puxo...” (O tio:) “Dispara! Larga, larga agora...” “Uhhhh...” (O tio:) “Larga a corda, Alabad! Para aí não, ai, ai, na direcção do alvo, do al –” “FTAAAAAUMMMMM!!!” (Observa a trajectória da flecha. O resultado parece não ser o melhor. Para o público:) Convém desde já adiantar que ninguém nasce ensinado! (Gemido ao longe.) “Aeiee!” (Gesto de desculpa, que pode ser para um espectador do fundo.) (O tio:) “Ninguém nasce ensinado mas sem bom-senso o melhor é ires já para casa!” “Tivesse eu uma casa e bom-senso não faltaria.” (O tio:) “Mas que raio estás tu a fazer, Alabad, explica-me? O alvo fica ali. Tu disparas-me para ali? Mas o que é que se passa?” “Passa-se que não fiz pontaria, pronto! Passa-se que fechei os olhos e deixei que Deus me guiasse a flecha! Passa-se que o meu tio é que deseja ardentemente que eu maneje o arco, quando se vê perfeitamente que as minhas mãos já foram de oleiro.” (O tio:) “Ofendes-me e agrides-me, Alabad! Pedes-me que te ajude e desistes logo ao primeiro contratempo? Bah, afinal, não passas de um... de um...” “Pronto, pronto, pronto. Está bem. Pratica-se. O que é que se há-de fazer? Pratica-se. É para isso que aqui estamos: para praticar! Que Deus me guie, enfim. E às flechas também.” E lá pratiquei... (Com o olhar, trajectórias dos disparos.) “Ftaauumm! ftaauumm!... ftaauumm!...” até ficar com todos os dedos desta mão em carne viva. Pratiquei até me fazer, finalmente… (Hesitação comprometida.) um mau arqueiro! É que isto do arco não é assim do pé para a mão. É uma vida inteira dedicada à causa! (Directo, para o público.) O que é que foi? Bem bom, ser um mau arqueiro! Além do mais – reconheça-se – sou um privilegiado, pois Mustafa Khalafallah – que a bênção de Deus esteja sempre consigo! – é um dos mais prestigiados guerreiros da cidade e aceitou-me nos seus arqueiros! E onde mais é que eu podia beber aquela esplendorosa bebida fervida, aquele xarope magistral, slup!, de sumo de uva adoçado com mel, coisa absolutamente rara nos dias que correm? Um privilégio, sim senhor, um privilégio! “Mas onde é que arranjas isto, Amin? És tu que o produzes?” Ah, esquecia-me! Amin – que Deus o encaminhe nesta vida e na outra! – era o meu melhor amigo aqui no regimento. Ele é que me trazia aquela bebida. Simpatizou logo comigo, mal entrei para o serviço de Mustafa Khalafallah – saudações! “Onde raio arranjas tu esta bebida, Amin? Andas a roubar? Humm... Isto já começa a ser muito esquisito. Porque bebemos sempre às escondidas? Porque não partilhamos com os nossos companheiros? Eh, onde é que vais, Amin!... Amin! Eh!” E lá vamos nós para o esconderijo do costume... “Amin, responde-me. Não, não, não, não! Não bebo nem mais uma gota, responde-me: Para quê todo este segredo?” (Com suspense.) Ei-lo, finalmente, que fala: (Amin:) “Queres dividi-la com os restantes? Então molha os lábios, pois já terás bebido a tua parte. Queres fazê-lo à vista de todos? Então molha os lábios. Mas vê lá... não te descuides e não vás molhar as goelas também, ou ainda te tomam por ladrão!” “Bem, não é que eu queira, realmente, partilhá-la. Mas acho estranho que só ma dês a mim, logo a mim, que me conheces há tão pouco...” (Amin:) “Queres beber? Então não protestes. Cá vou tendo os meus motivos. Mais um pouco, então?... (Dá-lhe de beber.) Talvez a razão... talvez a razão seja mesmo essa: a de te conhecer há tão pouco, Alabad. Ainda tenho esperança de que não sejas como os outros. Que sejas diferente.” (Bebendo.) “E sou, sou! Mais um bocado, então?... (Recebendo mais.) Ah, Amin, que Deus te favoreça em todas as ocasiões! Slup, gloo, hac, glooo… (Escurece, repentinamente.) Eh! A lamparina! Amin, apagaste a lamparina! AMIN! O que é que estás a fazer!? A luz, não há luz...” (Amin:) “Silêncio, Alabad! O momento é solene!” “Ai, ai, ai. Não estou a gostar nada disto… Mas o que é que trazes aí?” (Escandalizado.) Maldição! (Em tom muito baixo, quase sem se ouvir a última palavra que, por isso, articula bem.) Ele trazia viiiinho! “Mas... mas... mas isto é vinho, não é!?” (Amin:) “É vinho, Alabad, é vinho. E agora? Diz-me que não o vais beber, diz-me! (Curta pausa.) Quantas vezes na vida terás provado esta bebida, Alabad? Vergonha? Medo? Estamos cercados, a cidade adoece, definhamos, estamos às escuras, ninguém nos vê... e agora? Diz-me que não o vais beber, diz-me! Recusa ou arde no inferno!” “Porque é que me estás a fazer isto, Amin? É alguma prova pela qual tinha que passar? É hábito tratarem assim os ingénuos?” (Amin, misterioso, olhando de alto a baixo para Alabad:) “Gosto de ti, Alabad.” “Gostas de mim!? E desvias-me dos caminhos de Deus...” (Alabad recebe mais vinho e não enjeita bebê-lo.) (Falando com a voz entaramelada.) Há coisas que não se explicam. Estivemos ali quanto tempo? Quanto, não sei, mas, oh!, quanto mais ofendia a doutrina e os costumes mais o desejo de abusar me incendiava a alma. “Glu, glu, glu, glu, glu…” (Muito tocado, para o público.) O que é o vinho, meus amigos? Para começar, é a bebida preferida dos sitiados... alarga-lhes a todos o âmbito estreito das suas muralhas. E isso já não é nada pou – (Nasce de rompante uma luta: Amin quer beijar Alabad, este resiste.) “EH! EH! EH! MAS O QUE É ISTO? EI, PÁRA AÍ! PÁRA COM ISSO, AMIN! (Cospe.) PTUUH! MAS O QUE É QUE ESTÁS A FAZER?” (Uma bofetada forte em Alabad.) “Splanc” Oh, meu Deus! Amin não era como os outros, estava-se mesmo a ver! Era uma mulher enfeitiçada... Não, não... não era do vinho que me subia, que me trepava furioso pelo pescoço... Amin era um demónio! Desejava-me como eu desejava Layla e todas as mulheres bonitas! Eu vi-o nos seus olhos. Que horror! (Lutam.) “Splash! Tram!... Plunct! Paf!” “Socorro!.. Ai, não, não quero mais... Larga-me, larga-me, LAAARGA-ME!” (Gesto largo. Pausa.) (Amin, nessa posição:) “És tal e qual os outros, Alabad!” (Cospe-lhe.) “Ptuuuh!”... (Silêncio. Alabad está sentado no chão, completamente embriagado.) “Alabad bin Muhammad Almançor... Bebes como um desnaturado, um ferino errante, e o castigo aí está, implacável e veloz: és atacado por um homem-mulher! (Para cima.) Ó Deus... Tu estás em todo o lado, em toda a parte. Até nas folhas que caem das árvores. Criaste o homem da essência do barro e eu já fui oleiro. Depois criaste-o de uma gota de sémen e abrigaste-o em lugar seguro...” (Canta, como que vindo de longe, o chamamento para a oração: Allah akbar, Allah akbar, Allah akbar, Allah akbar, ashado an la elah ella Allah, ashado an Muhammad an rasol Allah, hay ala asala, hay ala alfalah, Allah akbar, Allah akbar, la ilah ila Allah.) “A oração. Deus é graaaaaaaaaaande...” (Cai redondo, com a última palavra.)
5 (O tio:) “Quando as armas estão prontas o bom senso vai-se embora. Vê, ali, Alabad... Um aríete. Ali, mais à direita, isso, um aríete.” O aríete é uma máquina de guerra, um vaivém de cabeça muito dura, para bater nos muros e nas portas: vaivém... promm! Vaivém... prommm! Sempre a marrar, até doer. Tal e qual como o que se passa na minha cabeça: Vaivém... promm! Vaivém... prommm! Sempre a latejar, até doer. (O tio:) “Vês mais alguma coisa, Alabad? (Observa para lá.) Então, abre-me os olhos, rapaz!” “Vejo... hum... nada.” (O tio, olhando para a frente, só por coincidência apontando para alguém no público:) “Ali, um suíno!” “Um suíno? Onde?... Ah, um suíno!” Um suíno é uma espécie de manta de guerra que serve para encobrir os invasores que se aproximam da muralha para picá-la e enfraquecê-la. (O tio:) “Mais, Alabad? Não consegues ver mais nada?” Com a cabeça a rebentar e o sol a bater-me na vista, qual suíno a espicaçar o que me resta do entendimento, tudo o que vejo é mesmo, realmente, exactamente, absolutamente… (Imitando a voz do tio:) “mais nada!” (O tio:) “Aquilo ali há-de ser uma torre, rapaz, uma torre andante!” “Ditosa dor de cabeça, para ver todas estas coisas, ditosa dor de cabeça que me empana a vista.” Uma torre andante, como diz o meu tio, é uma fortaleza de mil pezinhos que, não tarda nada, chegará até aqui para que lhe sintas o hálito e a vejas deitar cá para fora (Deita lentamente a língua de fora, até ao exagero, acabando por fazer uma careta.) a sua língua enorme… uma língua que expelirá centenas e centenas de criaturas enfurecidas, com um hálito ainda pior! (O tio:) “Humm... Ainda pior que o teu?... (Ri.) Então, rapaz, ânimo! Olha: Indulgência aos que bebem até à embriaguez. Há quem tenha defeitos maiores sem ter bebido uma vez.” Quem comete o mal, comete-o contra si mesmo. O meu tio não está chateado e muito menos envergonhado. Tem a experiência dos mais velhos e sabe que a tolerância é o melhor remédio para com os néscios que, como eu, se arrependem. Por isso... (O tio:) “Por isso, vamos, não há tempo a perder. Juntas-te ao teu corpo de arqueiros. Mas primeiro vais à mesquita. Quer isto dizer que precisas de passar pelos banhos. Tomas um banho completo para lavares a alma. Mais tarde consta que a tua mulher terá cozinhada uma galinha muito nervosa, o que, nos tempos que correm, há-de saber melhor que um bom borrego com marmelos.” “Oh, sim, um banho. Eu tenho a intenção de me desfazer de todas as impurezas!... Sim, e já vejo a água ali... pronta, preparada... (Para cima.) Deus, faz com que eu seja um dos que não cessam de se voltar arrependidos para Ti, e um dos que não cessam de se purificar! (Para a frente.) Sim, claro, tudo isso. Só que a ideia de regressar aos arqueiros de Mustafa Khalafallah -saudações! – (Para baixo.) cria-me cá um desarranjo nas entranhas, que até receio que este banho não venha a dar em nada... (Dores no estômago.)
6 (Abd al-Karim:) “Alabad, onde é que estiveste este tempo todo?”, pergunta-me Abd al-Karim – que Deus o satisfaça no Paraíso! –, um dos bons arqueiros do regimento e a quem devo obediência imediata. (Abd al-Karim:) “Regressa imediatamente ao teu posto e deixo-te uma recomendação: fala pouco se não te queres dar mal connosco. Considera-te avisado!” E o meu posto era precisamente aqui, na muralha, a oriente, mesmo ao pé da Porta do Cemitério. Por falar em cemitério... enquanto aqui se morre mais do que se vive, já nem há onde enterrar os defuntos, quanto mais fazê-lo condignamente. Rendidos ao mau cheiro, à fome, à tristeza, pedimos socorro em silêncio, mas mantemo-nos decididos e imperturbáveis aos olhos do inimigo. (Alguém na muralha:) “Bluhhh... blahhh! Ptuuh! Cospe na cruz, cospe na cruz!” (O tio:) “E ali, Alabad, o que é que vês ali?” “Uma igreja?” (O tio:) “Uma igreja, Alabad. Uma igreja e um cemitério.” Quem tivesse dúvidas, que abrisse realmente a vista. Eles vieram mesmo para ficar e até já enterram os seus mortos. (Enervando-se progressivamente.) “Oh, Deus, de que nos serve o castelejo, a alcáçova, toda esta cerca, as mesquitas, as torres, as casas, as escolas, as lojas, as ruas, se eles é que têm tudo? (Pausa. Mais sereno.) Eles têm a água, a terra, o ar – sim, sim, até o ar, pois o nosso é tão pestilento que quando o respiras, na melhor das hipóteses, uma boa parte do teu alento também apodrece – (O tio:) “Resistir, Alabad, resistir! Quem persiste para lá da vontade do infiel derrota-o mais facilmente do que praticando o seu jogo sujo!” São palavras. Dão ânimo, mas são palavras e não te matam a fome. Eu não disse que a palração não me traria qualquer consolação? (O cão:) “Ão... ão!” “!!? Olha, olha, ladra-me de novo um cã – ó Deus, é o mesmo miserável, é o mesmo que me ladrou há dias tão a propósito! (Virando-se para o cão.) Anda cá, feiínho, anda cá. Ah, já sei, já sei o que tu queres! (Tira do bolso um osso de galinha.) É osso, cão, não queres?... É do pescoço!” (Estende-lhe a comida. O cão fareja, tira-lhe o pedaço da mão, quase lhe levando os dedos, e foge de imediato.) “Ó cão, ó cão... deixa-me dizer-te uma coisa. Arriscas muito ao seres nos dias que correm um cão, mesmo que feio e esfomeado...” (O cão devora o pedaço de comida, como se nem houvesse osso.) “Vamos, eu dei-te o petisco; o que é que tu me dás em troca, hum?” (O cão rosna.) “Olhem só!, nós aqui a morrer à fome e estes diabos a encherem a pança com o que lhes damos, quando não é o que nos roubam! (Para o cão.) Ah, não, desculpa-me, isto não é só dizer-se, ão, ão, que se é cão! E onde é que está o vosso apregoado sentido de gratidão?” (O cão:) “Ão, ão... ão, ão!” “Não, não, não, não. Não quero saber de mais nada, o que é que tu me dás em troca? Uma das tuas coxas? As duas? Humm... é pouco, muito pouco. Tu és só pele encardida e osso... Ora anda lá aqui. Anda, cá, escanzelado!... Olha que eu me chateio! Anda cá! Ai, é! Ai, é assim que me recompensas? (Apanha uma pedra. Persegue-o.) ANDA CÁ, CÃO! Eh... eh! (Tenta apanhar o cão mas este escapa-se-lhe.) Ah, cão! Voltas a passar por aqui e levas um pontapé que vais parar à – Oh, a Lua!... Ó Lua, ó bela Lua, recebe este poema, que é tudo o que tenho para além da baba e do ranho. Chama-se Poema da Lua e do oleiro...
Oleiro, se acaso estás amargurado não mortifiques com as mãos a argila com que Adão foi primeiro modelado. Procura no torno que moves a vida tranquila e dá de novo forma a uma mulher nua. Quem sabe não terás nas mãos a própria Lua?”
7 (Abd al-Karim:) “NÃO OLHES PARA A LUA, PASPALHÃO, DISPARA, DISPARA!” (Sons de disparos.) “Ftan, ftan, ftan, ftan, ftan!” (Abd al-Karim:) “DISPARAR!” O meu corpo de arqueiros... (Disparos em série.)”Ftan, ftan, ftan, ftan, ftan! ” O aríete deles... “Vaivém... promm! Vaivém... promm!” (Abd al-Karim:) “DISPARAR!... !?... ALABAD, DISPARA, DISPARA!” “É o que estou a fazer, então!...” (O cão:) “ÃO, ÃO!” “... Mas este imbecil não me larga!” (Repele-o com um coice.) (O cão:) “Caimmmmm!... Ão, ão!” “Mas o que é que tu queres, desgraçado? Olha lá para mim! Olha-me lá nos olhos. Achas-me com cara de quem te quer bem?” (O cão:) “ÃO, ÃO!” (Abd al-Karim:) “ALABAD, DISPARA!” O meu corpo de arqueiros... (Disparos em série.) “Ftan, ftan, ftan, ftan, ftan!” Alabad, no retumbante manejo do arco... (Puxando a corda e disparando.) “ftaummmm!” Por todos os lados os infiéis invadem-nos como formigas furiosas... Cinco fundas baleares abalam-nos a cerca... “Iiiiiiiôôôô... PRAMMM!... Iiiiiiiôôôô PRA-MMM!” (Abd al-Karim:) “ALABAD! DISPARA! DISPARA!” Alabad, no aparatoso manejo do arco... (Puxando a corda e disparando.) “FTAUUUUUMM!” (Amin:) “!??... Alabad, eu nem quero acreditar! Tu tens consciência de que acabas de disparar contra os nossos?” (Abd al-Karim:) “DISPARAR!” (Disparos em série.) “Ftan, ftan, ftan, ftan, ftan, ftan, ftan!” Alabad, no magnificente e sumptuoso manejo do arco... (Puxando e disparando.) “FTAUUUUUUMM!”
8 (Dos sons bélicos nasce uma trovoada. Alabad recua e recolhe-se com o frio. Os sons continuam em transformação. A trovoada desaparece até ficar um som de fundo contínuo. Alabad já dorme, sentado no banco. Deste ruído irrompem latidos.) (O cão:) “Ão, ão!” (Alabad acorda e dá de caras com o cão.) “Tu bem podes receber pontapés e os sobejos dos restos que engendramos para enganar as tripas. Quando eu cair de quatro patas para não mais me levantar, o que farás de mim? O repasto que nunca tiveste! E, no entanto, só me pudeste devorar porque te mantivemos de pé com os sobejos dos restos que engendrámos para enganar as tripas... Ou não?” (O cão:) “Ão, ão!” “É que tu, vagabundo, pouco mais és que uma cavidade revestida por um saco imundo. Se te der um bocadinho de nada ofereço-te o quê? Um bocadinho de nada? A suprema abundância! Razão tinha o meu irmão: come menos e saboreias mais. Aliás, vendo bem, há qualquer coisa em ti que me lembra o meu mano Youssef...” (O cão:) “Ão, ão!” “Sim, eu sei, estamos sempre em desacordo, mas não é isso... é... o que é?... não sei, a expressão... a magreza... o modo... não sei... (Pausa longa.) Youssef, deita-te!” (Alabad, levanta-se de imediato.) E não é que o cretino obedeceu? “Levanta-te!... Youssef, levanta-te!” (O cão obedece.) Extraordinário! “Salta!... Youssef, salta!” (O cão, pulando:) “Ão, ão!” “Youssef, faz chichi! (O cão dirige-se a ele.) Ê-ê-ê-ôoo... porcalhão... Então tu chamas-te Youssef!? Horrível. Quem é que teve a triste ideia de pôr nome de gente a um cão? Horrível. Se calhar também falas...” (O cão:) “Ão, ão!” “Oh, assim é fácil. Fala lá a minha língua... (Curta pausa.) Youssef, ordeno-te!” (O cão fala cheio de propriedade um arrazoado em árabe...) “!!!!!!!!!!????????? Ai, ai, Alabad! Tu voltaste a beber?” (O cão continua a falar...) “Hã?” (O cão fala, fala...) “Procuro quem? O meu irmão?” (O cão:) “Ão, ão!” “Diz-me, cão, fala. AJUDA-ME!” (O cão:) “Ão, ão!” “Youssef, fala de novo a minha língua, imploro-te!” (O cão:) “Ão, ão!” “Diz-me, cão, fala… ajuda-me… diz-me, cão, fala… ajuda-me… diz-me, cão, fala… ajuda-me… (A voz vai-se desvanecendo, até Alabad regressar à mesma posição do início, quando dormia.) (A voz interior:) “Acorda... acorda... Alabad, acorda... acorda... ac... (A voz transformando-se na de Layla:) ...orda. Alabad, acorda! Tu não vais acreditar... Abre os olhos, tu não vais acreditar!” (Alabad acorda.) “!!!!!!!... YOUSSEF!... (Levanta-se.) YOUSSEEEF! (Para cima.) Ó Deus, como acreditar numa coisa destas?” (Youssef:) “Ergue a cabeça, Alabad, sou eu, o teu mano.” (Para a frente.) O ser é o que é, não é assim? (Sorri.)
(Pequeno interlúdio, mais curto que o anterior.)
PARTE FINAL
9 (Para cima.) Em nome de Deus, o clemente, o misericordioso. Glória a Deus, quando chegar à noite cerrada e ao meio-dia! Ele faz surgir o Vivo do Morto e o Morto do Vivo; revive a terra após a sua morte: assim vos fará surgir de novo. O que se conta a seguir é breve, porque é preciso morrer. Podemos ver daqui o rio, mergulhar os olhos no azul límpido das suas águas mas, por detrás está Almada. E não tarda nada o Tejo ficará tinto de sangue. (Para cima.) “Pedimos-Te, que não nos prolongues este castigo e fulmina-nos de vez, a todos, aqui, agora.” Mas Deus prolongou-nos o castigo e fulminou Almada. Almada foi saqueada, destruída, violada. E como uma desgraça vem sempre acompanhada, os nossos choros inspiram os malfeitores da cruz, que se dedicam de ânimo recomposto à construção de uma nova mina, aqui mesmo, entre a Porta do Ferro e a torre. E como uma desgraça vem sempre acompanhada, duas fundas baleares, duas enormes, são agora levantadas. E como uma desgraça vem sempre acompanhada, é uma nova torre andante que vês agora construir... “Ai, ai, esta vai ser grande!...” (Alguém:) “Venham, venham, acudam aqui!” A vida em parte alguma se pode dizer breve quando acaba bem, pois que durou o que devia, não o que podia durar. (O tio:) “Alabad, não importa por quanto tempo, mas quão bem a tenhamos vivido.” E como uma desgraça vem sempre acompanhada, a oriente ruiu um pano de muralha com uma extensão deveras alarmante. Da adversidade extrema, meu amigo, nem tu sabes os prodígios que te assaltam. Erguemos uma paliçada com as trancas das portas e combatemos ali mesmo, de peito aberto, sem medo de nada... “ftun, ftun, ftun, ftun, ftun, ftun, ftun, ftun”, fixos, imobilizados, os nossos corpos resistem como ouriços de espinhos eriçados, cravejados por flechas que pouco ou nada nos magoam. E como uma desgraça vem sempre acompanhada, Youssef, imaginem só, o meu irmão reaparecido, voltou a desaparecer. Assim, sem mais nem menos, desapareceu. (Citando Youssef, não o imita:) “Um figo é sempre um figo. Alabad, eu não me demoro.” E como uma desgraça vem sempre acompanhada, aquela torre gigante teima mesmo em chegar até nós. “Uhaaaaa!” Um turbilhão de pedras para cima da detestável torre. Uma luta insuportável. Para quê? Para nada. A maré vaza. A torre, envolta em vimes e peles de boi, avança como nova, avança como se nada lhe tivesse acontecido, avança, avança, avança, “ehhhhh”, só mais um bocadinho, “eeeeeeehhhhh”, avança... Nós depomos as armas, baixamos as mãos. De qualquer forma, há já muito que fomos tomados por dentro, pela fome, pela miséria, pela doença, pela angústia, pela dor, pela tristeza... e também pelo amor. Então, no silêncio, escutas verdadeiramente a morte, como nunca antes a julgaras sentir. A mesquita principal mais não é que um hospital atulhado até às costuras de olhares vazios, quando já não fechados. Até custa acreditar como é que os invasores não terão já entrado na cidade para dedicá-la à mais pavorosa das sangueiras. Mas, ó meu amigo, a rendição como ajustado não foi pacífica. Eles entraram aqui e chacinaram até o que já nem existia. Arrombaram e descambaram com tudo, mataram as pessoas que morriam, pilharam as casas só para deixá-las desventradas, cuspiram-nos enojados e eu… eu… portei-me como um cobarde imundo! Quando entraram na casa que nos abrigava, vi o meu tio e mais dois amigos, morrerem como cães; Layla violada até a deixarem com as entranhas expostas à luz do dia, e eu fiquei assim... (Quieto, despojado.) Bastava um gesto contra aqueles imundos, um gesto, para seguir com Layla o mesmo caminho da morte e da vida, mas tudo o que fui capaz de fazer foi... (Quieto, despojado.) (Um cristão rindo e apontado para Alabad:) “Ah, ah, ah, ah, ah!” (Alabad, sendo atingido na cabeça:) “VLUUUUMP!” “Aaaaah!” O meu rosto desce então vagarosamente até ao chão, como o sangue que me corre da testa. Percorro-o depois com o olhar, como quem segue um riacho, até poisar nos olhos de Layla. Horas depois, foi dada ordem na cidade para que houvesse maneiras, que esta chacina era indigna, que este horror não fora combinado, que na guerra tem que haver nobreza e nem todos os saques precisam de produzir espadas vermelhas. (Pausa.) Um sacerdote cristão encontrou-me e tratou-me das feridas do corpo, que as da alma já eram fardo impossível de aliviar. E foi assim que parti para sul, talvez para Silves, em busca de sei lá o quê. Uma longa fileira de irmãos atravessou os montes e os vales, em busca de sei lá o quê. Lentos, pesarosos, assombrados com a vida. Não vislumbro nenhuma cara conhecida, embora todas me pareçam familiares. Nem sequer Amin, que agora me detestava, nem o grande Abd Al-Karim, que também não morria de amores por mim... nada. (A voz interior:) “Ergue a cabeça, Alabad, ergue a cabeça... Para a frente é que é o caminho...” (Ergue-a, lentamente.) E lá fui eu, mais lento que a lentidão. Tão lento que a certa altura já estava parado. Depois olhei para trás. (Olha. Depois volta-se para a frente.) Vi uma coluna de fumo na minha direcção... (De novo para trás. De novo para a frente.) Ah, é apenas uma nuvenzinha de poeira... (O cão:) “Ão, ão... ão, ão!” (Do espanto à satisfação:) “Ó Deus!, é o maldito cão!”
(Ainda e sempre satisfeito:) “Oh, como se enganam Os homens que teimam Para sempre viver: É preciso morrer.
A vida é um sonho Real e medonho. E se há Paraíso: Morrer é preciso.
Morrer é preciso, Para lá do juízo, Para lá do saber: Mas é preciso morrer.” (Escuro.)
|
| Última actualização desta página: 03-03-2005 19:46:19 |